Major Tom

Há semanas que a aventura do Major Tom, personagem da música Space Oddity, de David Bowie, reverbera na minha cabeça, com todos os seus efeitos sonoros e principalmente com o sentimento na voz do cantor.

O álbum Space Oddity e sua música-título foram lançados (e não haveria palavra mais óbvia e ao mesmo tempo adequada) por ocasião da primeira viagem à Lua, e, segundo Bowie, o que o inspirou foi 2001, o filme de Kubrick.

Superficialmente sobre os desafios e os perigos das viagens espaciais, a música nos mostra como, no ápice do desenvolvimento da humanidade, conseguimos chegar aonde já estávamos e ainda estamos: na mais completa solidão, como espécie e como indivíduos.

Can you hear me, Major Tom?

Homem no escuro

Talvez a vida seja nada mais nada menos que a arte de passar pelos percalços sob a perspectiva de um otimismo moderado, que considere a inevitabilidade do sofrimento com uma certa compreensão de que, por mais parodoxal que isso possa parecer, trata-se de uma dádiva, um privilégio ou, ao menos, uma oportunidade.

É mais ou menos isso que se extrai de “Homem no escuro”, de Paul Auster, que conta, muito metalinguisticamente, a história de August Brill, crítico literário aposentado, de sua filha Miriam e de sua neta, Katya, ambas passando por momento de profunda dor.

A princípio não parece nada otimista e possivelmente não o seja: Brill, viúvo e sofrendo a perda da esposa, tem sua mobilidade reduzida por um acidente, a filha separou-se do marido recentemente e a neta perdeu o companheiro no Iraque. Mas é ele, provavelmente pela certeza da proximidade da morte, que busca, mais em seus pensamentos que em suas ações, ver algum traço de esperança para filha e neta.

E o otimismo reside essencialmente na falta de alternativa. Se, em uma situação como essa, reconhecemos que o mundo continua a girar, a chance de não se entregar à depressão é muito menor.

Da impermanência

Logo no início de Moonage Daydream, ouve-se David Bowe referir-se, por influência budista, à essência impermanente das coisas, e a consciência sobre esse princípio contrasta a todo momento com o legado do artista, que, mesmo quando ninguém mais lembrar de quem foi David Bowie, continuará vivo.

Ontem Roger Federer se despediu das quadras. De todos os esportistas, talvez tenha sido meu maior ídolo, e é difícil entender a razão, principalmente por eu não jogar tênis. Não são suas conquistas que impressionam embora sejam notáveis. Acho que é o jeito contido de executar com perfeição e beleza os movimentos do jogo, é aquele que imaginos ser ao executarmos um backhand. E eu, que quando estou triste de verdade não consigo chorar, chorei ao ver uma matéria sobre seu jogo de despedida

Existe uma frase famosíssima que, quando criança, achava enigmática: “Sempre haverá Paris”. Hoje, entendo perfeitamente a sua profundidade e o que rerpresenta. Mesmo buscando a cada dia praticar o desapego, de vez em quando é preciso nos ancorarmos em algumas certezas para pegarmos fôlego a fim de atravessarmos as dificuldades.

A verdadeira aceitação da transitoriedade de tudo talvez seja alcançada por uma minoria absoluta das pessoas, se é que alguém já a alcançou. De minha parte, confesso que, por enquanto, ainda sinto preferir que sempre houvesse Federer.

Do avesso

O mais difícil são as manhãs, o monstro camuflado no escuro do quarto, o peso da existência que se faz sentir de uma só vez ao se levantar da cama ainda na opressão da noite.

Todos os dias a mera rotina exige além das suas capacidades, é o simples existir dentro de um contexto que o leva ao limite.

Não há nada mais assustador que viver um dia após o outro.

Enquanto

Enquanto o mundo se digladia nos mais variados campos, quem dera fossem apenas as jogadoras, o menino dorme na arquibancada do torneio de Wimbledon.
Os homens (a espécie, no caso) correm atrás do sucesso, a sociedade discute seus problemas, com foco naquilo que é eleito o tema da vez, os pequenos de mentalidade e de alma disputam mesquinharias. Enquanto isso, o menino dorme na arquibancada.
Nos tempos da ansiedade, o menino dorme.

Inesperadamente

No meio do almoço corrido, enquanto, distante, engolia o alimento, o garoto passa com as mãos deslizando sobre a minha mesa, e a parte implicante em mim acompanha ostensivamente o movimento talvez em busca da repreensão materna (que realmente sobreveio) à atitude do menino e, neste momento, senti falta de estar com o meu filho, uma conexão inesperada com a repreensão, um dos papéis do pai, não sei se por ser exageradamente exercido por mim, não sei se por simplesmente a falta ser sentida nos momentos mais inesperadamente banais.

Vai e volta

Certa vez ouvi de alguém que admiro que ele não via sentido em uma prova de atletismo, que não entendia a importância de alguém dar a volta mais rápida no percurso…


Com ele também aprendi a nunca refutar um argumento à primeira vista, uma das atitudes mais inteligentes que vi até hoje… Como nadador, ouvi aquilo e guardei para mim, até porque entendo o ponto de vista dele embora, claro, para mim dar a volta o mais rápido possível faça muito sentido.


Não porque se sobressair em relação aos outros seja a razão do esforço de todos os esportistas, compreendo que para muitos, talvez a maioria, o seja, mas também sei que muitos esportistas encontram no esporte um meio de vivenciar uma certa virtude, cultivar um potencial, zelar por uma capacidade que nos foi legada.


Se eu me orgulho dos meus feitos na natação, risíveis do ponto de vista da alta performance, isso se dá em razão de uma escolha de vida, como tantas que fazemos no decorrer dela.


Optei por tentar fazer sempre o melhor possível, e não há nenhuma forma melhor de mensurar seus resultados do que em um esporte contra o relógio, em que ninguém pode te ajudar ou atrapalhar.
Os frutos que colho vão além das medalhas, é uma vida um pouco mais saudável, alguns amigos para o resto da vida e a sensação de dever cumprido a cada boa competição. Dá para contar nos dedos, mas já é muita coisa.

Vale o ingresso

Como um roteiro simples pode se transformar em um espetáculo tão complexo? Junte histórias de algumas pessoas, histórias que envolvam relações com um outro e costure umas às outras para construir um pequeno quadro de vidas impactadas por algum momento – momento esse que é encenado em um monólogo

A princípio seria isso, mostrar a nossa construção por meio da relação com o outro, o que já se torna algo mais complexo do que o roteiro por si só poderia pressupor, mas, na relação da atriz com a plateia e, principalmente, pelas pequenas lembranças de que há algo de metalinguístico e autobiográfico na obra, começa-se a perceber que se trata de uma homenagem ao teatro, ressaltando-se aquilo que faz dele, da literatura, do cinema – da arte em geral – uma manifestação imprescindível na vida das pessoas: a capacidade de observar o mundo com os olhos do outro.

Isso, é claro, do ponto de vista mais limitado do espectador e sob a ótica privilegiada de quem dedica sua vida a oferecer essa experiência às pessoas. “Eu de você” é o título da peça; Denise Fraga é o nome da atriz.

3 em 1

Os insistentes flashbacks tornam a narrativa por vezes arrastada, mas os defeitos de “Imperdoável”, filme com Sandra Bullock e Viola Davis, são perdoados pela cena final – 20 anos na prisão à espera de saber se a irmã criada por Ruth estava bem e, por que não?, se mantinha alguma memória do tempo em que viviam juntas.

Impossível não lembrar que ainda ontem, antes de sair de casa, vi uma pequena parte do final de “Estão todos bem”, filme de 2009 com Robert de Niro e uma bela canção do Paul McCartney – “I want to come home” -, que infelizmente não está no Spotify.

Mesmo fã do seriado “This is us”, quem conhece sabe que trata de relações humanas e, mais especificamente, familiares, ainda assim penso que o seriado é realista quanto às dificuldades que todos enfrentamos, mas sempre por uma perspectiva positiva, quase lírica em alguns momentos

“Estão todos bem” é diferente, é doloroso por mostrar a incomunicabilidade entre pessoas que se amam sem o contorno otimista para encerrar um episódio, como em “This is us”. E, assim, a volta por cima emocional ao final do filme é mais fruto de uma aceitação da vida do que de uma forma positiva de digerir a realidade

O nó na garganta nos paralisa e só é possível seguir em frente depois de reconhecer que a única coisa que se pode fazer é respirar fundo. Quem sabe mais de uma vez.

O tempo de aprender

Entre as evidências das carências da minha infância, impossível passar um par de dias sem me lembrar dos vendedores de cocada no estádio do Rio Branco de Paranaguá, onde assisti a dois ou três jogos do limitado time de minha cidade natal.

O ato em si de ir ao jogo interessava-me pouco; gostava de participar do evento com meu pai e meu irmão e, talvez principalmente, de comer pipoca e açucaradíssimas cocadas que subiam e desciam os degraus das arquibancadas até que meu pai mas oferecesse – eu nunca pedia, hábito que conservo até hoje.

Naquela época, o vazio era literalmente preenchido por comidas, no posto em que parávamos para tomar café quando íamos viajar cedíssimo para Camboriú, na Confeitaria Lancaster, onde lanchávamos sempre que vínhamos a Curitiba.

Quem sabe não éramos mais sábios na infância, naturalmente vivendo um dia de cada vez ao sabor de nossos instintos e de nossos sentidos.